
Car@s, segue abaixo entrevista da Revista Comércio com o Estilista Ronaldo Fraga!
Em Fortaleza para lançar a Pós-graduação de Moda do Senac, o estilista mineiro Ronaldo Fraga fala de suas criações, de seu estilo controverso e original e deixa claro porque é um dos estilistas mais aclamados pela crítica e pelos designers na atualidade. Com coleções bem brasileiras e cheias de humor, Ronaldo começou sua trajetória em 1996, quando surgiu no cenário da moda nas passarelas do Phytoervas Fashion, evento que originou o São Paulo Fashion Week.
REVISTA COMÉRCIO – Você já esteve no Ceará outras vezes? Como você avalia a moda que é feita no Estado e no Brasil?
Ronaldo Fraga - Já estive em Fortaleza a convite de uma empresa local interessada em investir em tecelagem para alta costura e moda. Mas desta vez, fui convidado pelo Senac Ceará por conta de uma Pós-Graduação em Criação de Imagem e Styling de Moda que eles estão lançando agora em 2008, em parceria com o Senac São Paulo. Bom, o que percebo aqui no Ceará é o que percebo em vários lugares deste país: há uma diversidade imensa de possibilidades, de inspirações e de características da cultura que são pouco aproveitadas pela Moda. Há sim, uma preocupação grande em se fabricar roupa, em expandir a produção sem uma pausa para se pensar sobre uma identidade local de moda.
RC – Você será um dos professores do curso? Qual a diferença entre estilista e stylist?
RF - Não sou mais professor deste curso, mas já fui. Já ministrei alguns workshops sobre styling no Senac São Paulo e na Bahia, que também possui esta mesma Pós-Graduação. Esta diferença é importante que seja esclarecida para que os interessados não achem que serão estilistas ao final da qualificação. Stylist é aquele profissional que comanda o ciclo de criação da imagem, da pesquisa, da concepção e realização do projeto, até a chamada pós-produção ou finalização, incluindo etapas de definição estilística e estratégias de criação. A demanda pela formação profissional, assim como a ampliação do campo de conhecimento e atuação em moda cresceram rapidamente nos últimos cinco anos. No entanto, constatou-se uma lacuna a ser preenchida que contemple mais especificamente a concepção e a criação de imagem e que possibilite especializar a atuação no segmento. O profissional formado neste curso poderá coordenar e assessorar equipes de criação de imagem de moda para desfiles, editoriais fotográficos e compor equipes ligadas a trabalhos de visual, merchandising, desenvolvimento de produto, criação e design.
RC – A carreira de estilista possui muitos profissionais sem formação. Na sua opinião, qual a importância da formação de moda?
RF - É verdade. Muitas pessoas acham que o “mundo da moda” é feito de glamour e festas e isso não é verdade. Há muito trabalho, pesquisas, viagens, leitura e estudo, tudo é importante para compor coleções completas, que tenham alguma informação e se diferenciem das outras, sem perder aquele traço que é só seu. Sou formado em estilismo pela UFMG; pós-graduado pela Parson´s School, de Nova York; e Millenery pela Saitn Martin´s School, de Londres.
RC – Em todas as suas coleções os temas revelam que você é muito ligado na história do Brasil. Esta é a sua forma de buscar uma identidade de moda?
RF - Sim. Acho que há muito a ser explorado na nossa cultura e na nossa história e em todos os meus desfiles busco contar um pouco sobre este momento do País, ou sobre esta personalidade. Exemplos não faltam: Rute Salomão (inverno 2001), cujo amor entre uma católica e um judeu ortodoxo foi tratado com delicadeza; Quem matou Zuzu Angel? (verão 2001- 2002), para lembrar a estilista brasileira assassinada durante o regime militar; e Todo mundo e ninguém (inverno de 2004), um passeio pela poesia universal de Carlos Drummond de Andrade. E a coleção mais recente, em que trouxe um pouco da personalidade e força de Nara Leão para as passarelas.
RC – E o que é identidade para você?
RF – Vou usar uma frase que é do cineasta alemão Wim Wenders, no filme Caderno de Notas sobre Roupas e Cidades, sobre Yohji Yamamoto: “Identidade é uma cidade que cada um constrói dentro de si”. Então eu coloco as ruas, calçadas e prédios como quiser. E o grande barato é refletir quem somos nós enquanto brasileiros.
RC – É recorrente esta dúvida entre os estilistas e o público sobre o que da passarela vai realmente para os pontos de venda. O que é conceitual e o que é comercial na sua moda?
RF - Comigo não tem isso, tudo que produzo para os desfiles vai para as lojas. Atualmente tenho uma em Belo Horizonte e outra em São Paulo, além de representantes espalhados pelo Brasil e pelo Mundo. Em cada uma das minhas criações há um pouco do que quero contar e quem compra ou foi tocado pela minha história ou gostaria de fazer parte deste grande movimento.
RC – Em épocas de tecidos tecnológicos e máquinas de tecelagem cada vez mais eficientes, como a moda pode trabalhar questões de sustentabilidade?
RF - Vivemos um período da história da humanidade em que é preciso olhar a alma das coisas. Uma madeira traz a História. Transportá-la é algo quase mágico, pois ela carrega consigo registros históricos. Precisamos ter uma percepção mais ampla sobre a cultura. Eu tinha oito anos quando li meu primeiro livro sem ilustrações, Memórias de um Cabo de Vassoura, de Orígenes Lessa. Na verdade nem é um livro infantil e confesso que, naquele momento, não gostei. Mas foi a partir daquele momento que comecei a criar as imagens para uma história: olhar e imaginar. A natureza tem alma também e é preciso então pensar a moda neste sentido, de reaproveitamento de materiais até tecidos e tingimentos ecologicamente corretos, acho que essa é mais que uma tendência, deve fazer parte do cotidiano das criações dos estilistas.
RC – Na coleção Nara Leão você surpreendeu a todos quando leu uma carta como se fosse você contando para a cantora sobre sua coleção. De onde surgiu esta idéia?
RF - Toda a coleção foi bem emotiva. Comecei falando da falta que pessoas como Nara Leão, cheias de personalidade, nos faz. Quis contar para as pessoas quem foi esta grande mulher. Contar que ela foi mais do que a musa da Bossa Nova. Quase 5O anos depois, a maioria ainda não sabe que além do banquinho e o violão, carregou nas costas o morro (com Cartola, Zé Keti e Nelson Cavaquinho), a passeata dos 1OO mil (com as canções de protesto), cachos de Banana (com a fase tropicalista), um Circo (com as músicas para crianças). Nesta coleção tentei ilustrar as roupas com tudo que a trajetória dela me provoca. A fase Bossa Nova aparece na textura das calçadas portuguesas e no barquinho a deslizar no profundo azul do mar. As canções de protesto estão nos barquinhos negros, na favela gigante, na notícia de jornal. A Nara tropicalista e sua auto ironia surgem nos álbuns abertos, nas figurinhas, no quadriculado da piscina, no patchwork colorido das sacolas de feira. Para as formas, trago como referência uma foto sua em Paris, usando um vestido Tulipa meio “saco de dormir”. Linda, confortável e, acredite, muito sensual. Nos sapatos, o seu lindo fusca conversível.
RC – Como você define quem usa suas roupas?
RF - Meu consumidor tem que ter um mínimo de um desejo de liberdade. Liberdade no sentido de se livrar dos padrões, se distanciar dos padrões, se distanciar das amarras, se distanciar das imposições do mercado e tem que ter um mínimo de desejo de voar, de brincar e ver que além da escolha da roupa, da escolha da máscara, pode ser algo muito mais divertido de como as pessoas costumam fazer. Eu não consigo pensar no meu consumidor por faixa etária – as pessoas são cada vez mais jovens, em relação ao poder aquisitivo hoje a gente vê um grupo que faz parte de uma classe média cada vez mais achatada no Brasil com menos grana mas com um volume de informação como nunca tiveram. Não dá mais para falar em consumidor com determinado poder aquisitivo e faixa etária. É muito mais o espírito desse consumidor. E eu acho que esse consumidor deseja se libertar de todas as amarras em volta.
Serviço: Revista Comércio – Jornalista: David Telles www.ronaldofraga.com.br